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Dois personagens, duas histórias, 40 anos depois…

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Valeu a pena este último final de semana! Estava eu, no sábado pela manhã, participando da última mesa redonda de um congresso de ensino religioso na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), quando me surpreendi com uma das participantes da mesa, Anísia de Paulo Figueredo. Já de certa idade, corpo frágil mas vibrante, ela não fez uma preleção acadêmica, era mais um veemente discurso político. Apresentou-se como conterrânea de Guimarães Rosa, sertaneja das bandas do Maquiné (e isso já me despertou a atenção). Deu uma aula de história, resgatando antigas memórias da luta pela educação pública de qualidade em Minas Gerais.

Anísia fez uma homenagem emocionante ao Pe. Snoek, falecido poucos dias antes, fundador do Curso de Ciências da Religião na UFJF, meu professor de Ética, disciplina do curso de Filosofia, na década de 1970. Relembrou da sua luta pela implantação do primeiro curso de Ciências da Religião na academia em nosso país e que foi fechado pelas diatribes do bispo católico junto ao Ministro da Educação, Jarbas Passarinho. Eram os tempos da ditadura e o bispo não queria um curso de “teologia” na sua diocese fora do seu controle. A palavra da Profa. Anísia era uma denúncia.

O curso foi reaberto na década de 90 e hoje tem mestrado e doutorado. Ela descerrou um quadro com a foto do Pe. Snoek, chamou á frente os professores Faustino Teixeira (UFJF) e Paulo Agostinho (PUC-MG) que também foram parte ativa naqueles acontecimentos e pediu um minuto de silêncio. Anísia falou por mais de uma hora e despertou em todos uma emoção muito forte. Tive o direito de chorar. Era que acompanhei de perto tudo aquilo há mais de 40 anos.

Lá pelas tantas, a Profa. Anísia faz uma rápida referência a Diamantina (MG). Por um triz, me veio á memória outra Anísia nos meus tempos de Seminário, também na década de 70, mas um pouco antes dos acontecimentos de Juiz de Fora. Era a mesma? Não podia ser.

Depois de sua fala, ela saiu do auditório e corri atrás. Fui direto, perguntei: “você morou ou trabalhou em Diamantina nos anos 70?” Ela, de pronto, respondeu: “é lógico, meu rapaz, ainda moro lá até hoje!” Era ela. Contratada por outro bispo conservador naquela época, foi para o Seminário e lá provocou uma verdadeira revolução. Tudo com a aprovação do bispo conservador. Só Deus para explicar. Lembro-me que, com meus 15 anos, fui ator de uma peça de teatro, montada e ensaiada pela Prof. Anísia.

Relembramos tudo aquilo rapidamente. Depois me levou a uma das bancas das editoras que vendiam livros no local e me disse: “olha este livro aqui que estou lançando, fala um pouco da minha história, fala também do meu trabalho em Diamantina, falo também do seminário. Dê uma olhada. Você pode estar aí.” Folheei rapidamente o livro e tive direito de chorar uma segunda vez. No livro, uma foto dos estudantes junto com JK. E eu estava lá. Deve ter sido tirada no mesmo dia de outras fotos conhecidas junto com o Milton Nascimento, Fernando Brant e outros componentes do Clube da Esquina. Lembro-me bem daquele dia!

Duas histórias, uma em Diamantina e outra em Juiz de Fora, separadas por poucos anos, mas revividas juntas, agora, por dois personagens, 40 anos depois…

FAZENDA DA PEDRA

Toda linda e restaurada, a sede da Fazenda da Pedra, no município de Lagoa Dourada, em Minas Gerais, é o local de origem dos meus ancestrais no Brasil. Foi formada em 1760 pelo português José Tavares de Mello e sua mulher Antônia Diniz, por… carta de sesmaria concedida pelo governo colonial. Este José Tavares de Mello é um dos meus hexavós (ou 6º avô) e chegou ao Brasil antes de 1740, proveniente da ilha de São Miguel, arquipélago dos Açores.
Fazenda da Pedra

Eu, JK e o Clube da Esquina. Era 1971 em Diamantina!

JK e Clube da Esquina

O presidente bossa nova também era o presidente do Clube da Esquina. Em 1971, em sua cidade natal, Diamantina, Juscelino Kubitschek sentou na praça para ouvir um violãozinho de um cantor de voz macia a quem chamavam de Bituca, que, como todos sabem, era o Milton Nascimento. Esse raro registro do (legítimo) envolvimento artístico de um presidente com uma escola musical da MPB está registrada no livro Os Sonhos não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina, escrito por Márcio Borges.

O fotógrafo Juvenal Pereira relembra no livro a história destas fotos de JK com o Clube da Esquina. Ele conta que, no início dos anos 70, era free-lancer da revista O Cruzeiro e tinha ido a Diamantina a trabalho. Tinha ido de ônibus com Milton Nascimento e Lô Borges a partir da Rodoviária de Belo Horizonte. Viajaram em pé e à noite para encontrar os repórteres Fernando Brant (texto) e Luiz Alfredo (fotos), da revista O Cruzeiro. “Na procura de locações, encontramos o ex-presidente Juscelino Kubitschek com a equipe de reportagem da revista Manchete, que era concorrente de O Cruzeiro. A equipe da revista concorrente concordou em nos “emprestar” JK para algumas fotos.”

Para sorte minha, JK resolveu fazer uma visita ao Seminário e foi acompanhado pelos futuros grandes nomes da MPB. Tiraram várias fotos de JK sentado no jardim em frente ao Seminário rodeado pelos estudantes. Eu estava no meio deles. Fazia o 1º ano do Ensino Médio e tinha 15 anos. Na foto em PB, sou o de óculos, todo compenetrado, bem abaixo da coluna grega à direita que ostentava o pórtico desta vetusta e renomada escola. Eu vestia uma camisa branca que deixa aparecer a gola na foto. Estou ao lado do Edson Passos, um seminarista já no curso de Filosofia que, por isso mesmo, já usava batina. Consigo identificar vários outros colegas na foto.

Todas as vezes que Juscelino ia a Diamantina fazia questão de ir ao Seminário, pois estudara ali no final dos anos 20. Era sempre recebido com enorme carinho e gratidão, o mais ilustre dos diamantinenses, perseguido e exilado pela Ditadura Militar.

Há alguns meses me deparei com uma destas fotos na internet. Agora, aprofundando a pesquisa, me deparei com uma coleção completa de fotos tiradas no mesmo momento, inclusive esta em PB, onde pude claramente me identificar.

O que foi o Clube da Esquina?

 

 

Clube da Esquina foi um movimento musical que surgiu no final da década de 1960 em Minas Gerais. O Clube da Esquina surgiu da grande amizade entre Milton Nascimento e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô), no bairro de Santa Tereza, Belo Horizonte, depois que Milton chegou à capital para estudar e trabalhar. Milton acabara de chegar de Três Pontas, cidade onde morava a família e onde tocava na banda W’s Boys com o pianista Wagner Tiso; com Marilton foi tocar na noite, no grupo Evolussamba. Compondo e tocando com os amigos, despontava o talento, pondo o pé na estrada e na fama ao vencer o Festival de Música Popular Brasileira e ao ter uma de suas composições, “Canção do sal”, gravada pela então novata Elis Regina.

Aos fãs dos Beatles e The Platters novos integrantes vieram juntar-se: Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura, Toninho Horta, Beto Guedes e o letrista Fernando Brant. O nome do grupo foi idéia de Márcio que ao ouvir a mãe perguntar dos filhos, ouvia a mesma resposta: “Estão lá na esquina, cantando e tocando violão.” Em 1972 a EMI gravou o primeiro LP, Clube da Esquina, apresentando um grupo de jovens que chamou a atenção pelas composições engajadas, a miscelânea de sons e riqueza poética. O cantor e compositor Tavito faz referência às saudades do Clube da Esquina na música Rua Ramalhete.

Todos os seus integrantes engajaram numa carreira solo de sucesso, além da formação do grupo 14 Bis, que também fez muito sucesso desde a criação de O Terço. Considera-se que seus principais participantes tenham sido Tavinho Moura, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Toninho Horta, Flávio Venturini, e os integrantes do 14 Bis, entre outros.

 

O NATAL EM CURVELO NO INÍCIO DO SÉCULO XX

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Antiga estação ferroviária da minha terra natal, hoje transformada em Centro Cultural e Museu. Aqui trabalharam como ferroviários os meus dois avôs e três tios meus. Grata lembrança que já vai longe no tempo…

Amigas e amigos, não resisti. Recebi no natal este artigo do meu grande amigo Newton Vieira, jornalista dos sertões de Minas, um texto da escritora Maria Helena Cardoso falando como era o Natal no início do século XX numa pequena cidade de Minas, onde nasci – Curvelo. Na minha infância, ainda sobreviviam muitas destas tradições relacionadas ao presépio. Vivi intensamente todas elas. Vale a pena ler. Mas deixemos o Newton falar.

O NATAL EM CURVELO NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Meus queridos amigos, de tudo o que já li e pesquisei sobre os Natais em Curvelo nos primeiros anos do século XX o que mais me encanta é o belo relato da memorialista Maria Helena Cardoso (1903-2004) no livro “Por onde andou meu coração”. Maria Helena, a Lelena, era irmã do imortal LÚCIO CARDOSO, o maior curvelano de todos os tempos.

Elogiado pela crítica, saudado por Carlos Drummond de Andrade, “Por onde andou meu coração” inspirou Paulinho da Viola na composição do clássico “Foi um rio que passou em minha vida”, cuja história prometo contar em breve. Bem, deixo-os então na companhia da grande dama da memorialística brasileira. Escreve Maria Helena:

O Natal em Curvelo era simples, e não havia o hábito de as pessoas se presentearem, não sei se porque todos eram pobres. Rezava-se a Missa do Galo na matriz, e o que marcava aquele dia como de festa era o número de comunhões a mais.
Em compensação, o presépio era um costume tradicional. Ninguém que se prezasse deixava de armar o seu: havia-os nas igrejas, nas moradias particulares, os famosos que arrastavam visitantes de fora e os modestos, armados no interior das casas mais humildes. Continue lendo

O que faz esta mala aqui no meu blog?

Esta foto foi a única coisa que restou de uma fábrica artesanal de malas que meu pai tinha em Curvelo, cidade onde nasci e vivi até os 11 anos. Ele deu a vida a esta pequena empresa que chegou a ter cerca de 6 empregados e foi responsável pelo sustento da nossa família de 1956 até por volta de 1967. O prédio onde ela funcionou ainda existe na Rua Afonso Pena e, anos mais tarde, na década de 1980, chegou a ser sede do Diretório Municipal do PT.

“TOMADA DO PALÁCIO DE INVERNO” NO OTONIEL MOTA EM 1919

O movimento estudantil já era efervescente em Ribeirão Preto no início do século XX. Temos acima uma foto publicada no Diário da Manhã, de 26/10/1961, mostrando uma reunião de estudantes do Otoniel Motta em 1919. Esta foto pertenceu a Joaquim de Souza Meirelles e foi doada ao Museu Municipal de Ribeirão Preto pelo jornalista Antônio Machado Sant’Anna em 04/11/1975. Hoje ela se encontra no Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto. Dizia a reportagem: “Em 1919, os alunos do 1º, 2º e 3º anos do Ginásio do Estado (atual Otoniel Motta), que ainda se localizava na Rua Duque de Caxias (onde hoje se encontra o Auxiliadora), revoltaram-se contra a prepotência dos seus colegas que dirigiam o Grêmio Ciências e Letras. Da revolta à ação foi um pulo e o grêmio foi literalmente dissolvido a cabos de vassoura e a pata de cavalo (Joaquinzinho Meirelles entrou a cavalo na sala do antigo 1º ano). Foi um tempo quente! Daí resultou o Grêmio Ginasial Olavo Bilac, mais tarde transformado em Centro Nacionalista Olavo Bilac, de tão saudosa memória”. No verso da foto, encontramos informações muito interessantes sobre este reboliço no Otoniel Motta. A fotografia foi tirada na casa de Mário Pereira Rocha e podemos encontrar a identificação nominal de quase todos os figurantes, muitos futuros médicos, engenheiros, dentistas, advogados, professores, comerciantes, agricultores, industriais, funcionários públicos. Naquela época, a escola pública formava a fina flor da sociedade.

(foto do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto)